Por muito tempo, medir UX significava observar poucas pessoas usando um produto — testes de usabilidade, entrevistas, sessões qualitativas. Esse tipo de pesquisa continua essencial, mas tem um limite: ele não escala. Quando um produto passa a ter milhões de usuários, como saber se a experiência está realmente funcionando para todos eles, e não só para os cinco ou dez que participaram de um teste?
Foi essa lacuna que Kerry Rodden, Hilary Hutchinson e Xin Fu, pesquisadoras do Google, supriram ao propor o HEART Framework, apresentado em 2010 na CHI, a principal conferência de Interação Humano-Computador, promovida pela ACM (Association for Computing Machinery), a maior sociedade científica de computação do mundo.. A proposta era simples e potente: criar um conjunto de métricas que permitisse acompanhar a experiência do usuário em larga escala, usando dados de uso coletados automaticamente — cliques, tempo de uso e taxas de conclusão — complementando a observação de campo de grupos de usuários.
O nome HEART é um acrônimo para cinco dimensões
- Happiness (Felicidade) — a atitude e a satisfação do usuário, geralmente medida por pesquisas.
- Engagement (Engajamento) — o quanto o usuário interage com o produto por vontade própria.
- Adoption (Adoção) — quantas pessoas novas passam a usar o produto em determinado período.
- Retention (Retenção) — quantas pessoas continuam usando o produto ao longo do tempo.
- Task Success (Sucesso na Tarefa) — se o usuário consegue completar o que veio fazer, e em quanto tempo.
Nem todo produto precisa das cinco métricas ao mesmo tempo. A escolha depende do que está sendo medido: um app de conteúdo talvez priorize Engagement e Happiness; um serviço de assinatura, Retention e Adoption. Para conectar cada métrica a um objetivo real de negócio, o framework propõe um processo complementar: Goals → Signals → Metrics. Primeiro definimos a meta (o que queremos que aconteça), depois os sinais (o que no comportamento do usuário indica que isso está acontecendo) e só então as métricas (como medir esses sinais de forma concreta).
Testamos as métricas de UX em uma proposta de app de realidade aumentada
Para explorar como esse processo funciona, aplicamos o framework a um conceito autoral: um app de realidade aumentada que transforma salas de espera — de clínicas, hospitais e restaurantes — em uma espécie de caça ao tesouro. A criança aponta a câmera do dispositivo para objetos reais do ambiente (livros, calçados, quadros, talheres), que valem pontos conforme a raridade, e organiza o que coleta por temas, como um quebra-cabeça de classificação. Uma zona de segurança mantém a criança por perto do responsável: ao se aproximar do limite, a experiência entra em uma pausa suave — sem alarmes — até a criança dar um passo de volta.
O mapeamento do nosso conceito
Happiness — o objetivo é que a criança se sinta divertida e calma, não ansiosa. O sinal vem da percepção do responsável ao final da sessão, medida por uma avaliação simples de satisfação e nível de estresse percebido.
Engagement — como o tempo de espera varia por ambiente, o objetivo não é maximizar o uso, mas manter um tempo saudável de engajamento. O sinal é a duração da sessão comparada à média do ambiente, medida pelo percentual de usuários por faixa de tempo.
Adoption — o objetivo é que clínicas, hospitais e restaurantes adotem o app. O sinal é o número de novos estabelecimentos parceiros por mês, medido por segmento.
Retention — o objetivo é que a criança volte a usar o app em visitas futuras, em qualquer ambiente parceiro. O sinal é a repetição de sessões pelo mesmo perfil, medido pela taxa de retorno em 30/60/90 dias.
Task Success — o objetivo é que a criança complete ao menos uma categoria temática sem sair da zona segura. O sinal é o percentual de sessões concluídas sem interrupção, medido pela taxa de conclusão de categoria.
Esse exercício mostra algo que vale para qualquer produto: métricas sem objetivo viram números soltos. O valor do HEART não está em coletar dados, mas em amarrar cada dado a uma pergunta real sobre a experiência de quem usa.
Por que isso importa
O mercado de UX em mercados imaturos ainda trata métricas como algo posterior ao design — um relatório para justificar decisões já tomadas. O HEART propõe o oposto: métricas fazem parte do design desde o início, orientando o que priorizar e o que testar antes de escalar. Produtos bem-intencionados podem gerar ansiedade, frustração ou desengajamento sem que ninguém perceba — a menos que existam sinais claros para observar isso.
É esse tipo de raciocínio que trazemos para cada projeto: transformar uma ideia em estágio inicial em algo mensurável, antes de qualquer linha de código. Se você está nesse ponto, estamos por aqui.
IxDF — Google’s HEART Framework for Measuring UX: https://ixdf.org/literature/article/google-s-heart-framework-for-measuring-ux
Paper original (Rodden, Hutchinson & Fu, CHI 2010, Google): https://research.google.com/pubs/archive/36299.pdf
Designer sênior, entusiasta de Lean, Interação Humano-Computador (IHC) e uso ético de IA. Estuda e observa como tecnologias moldam o comportamento humano. Especialista em Experiência do Usuário com certificações em Marketing, Gestão de UX e Pesquisa Orientada a Personas. É a idealizadora do anahelp.com — portal dedicado a soluções de UX.


